Pedro Luís Ribeiro Marcondes; Médico (PUC Campinas), Especialista em Medicina de Família e Comunidade (HMMG/CHOV), pós-graduado em Gestão Pública (PUC Campinas), Psiquiatria (CENBRAP), Psicologia da Educação (PUCRS), Terapia Comportamental (PUCRS) e Fisiologia e Fisiopatologia Humana (UNIFESP). É também graduado em Imagem e Som (UFSCar).
A Fenomenologia da Escuta e a Neuro Atipia
Uma análise literária e filosófica sobre a audição de vozes através dos tempos
A fenomenologia da escuta reconhece que o som tem atributos de natureza de "alteridade". Na escuta, o homem deixa de ser sujeito epistêmico e torna-se ressonante.
Entender o homem contemporâneo neuro atípico envolve a aceitação de nossas particularidades para uma vida comunal laborativa, social, familiar, criativa e de consumo capital. A psicopatologia Esquizofrenia, através de um diálogo saudável, pode ser compreendida de forma epistemológica e não epistemológica. As criações literárias pré-psiquiatria tem em seus autores, na quase totalidade, visões de mundo que pouco "conversam" com os entendimentos atuais do que é o adoecer emocionalmente sobretudo no sintoma de "ouvir vozes", mais comumente relacionado à psicopatologia supracitada.
O psiquiatra Irlândes, Pat Bracken, ao criticar a psiquiatria, retoma esse ponto: o sofrimento auditivo não é disfunção, mas modo radical de experiência. Neste sentido vamos tentar viver um mundo plural, usando ferramentas como a discussão artística, que é justamente o propósito deste texto, trazendo estes tópicos à luz da Literatura e de suas teorias.
Capítulo 1
O "Cabinet"
A evocação deste trabalho de Conclusão de Curso está em compreender que a audição de vozes ditas "intrusivas", enquanto psicopatologia em diferentes possibilidades diagnósticas, fora, em outro tempo e contexto, objeto de interpretação não epistemológica ou de "cabinet", "bureau" ou do dito "catalogável", e, portanto, sem a interpretação médica própria de uma de suas grandes áreas, a Psiquiatria. O "inominável" do "fenômeno", o "estar próximo de Deus", que antecede mesmo às escritas bíblicas do Cristianismo, o "ouvir os fenômenos naturais a estabelecer comunicações", "antepassados", "objetos", "amores inatingíveis", "agentes contemporâneos, futuros ou pregressos, distantes ou impossíveis", animais, anjos, demônios, ou mesmo a evocação de um inconsciente superior que atinge o eu-lírico, o artista, em seus momentos de epifania e revelação, é próprio do homem pré-moderno, pré-psiquiatria.
Olhando como fenômeno não epistêmico, ou seja, não como discurso racionalizante sobre o conhecimento ou sobre a estrutura do mental, podemos elevar à discussão uma questão bastante importante, em que, em nossa contemporaneidade, floresce afirmações próprias de elucidação da neuro atipia: O homem que ouve vozes é um ser possuidor de patologia mental?
A Audição de Vozes na População
A audição de vozes são percebidas em número pequeno da amostra da população. No entanto, é em parcela menor ainda destes ouvintes, que se estabelece o adoecimento e o diagnóstico, respectivamente. Estes ouvidores apresentam "vozes de sofrimento", de "persecutoriedade", de "menos-valia", entre outros sintomas que provocam "negativismo", angústia, medo, dor intensa do ponto de vista emocional e consequências em volição, disposição, asseio, humor, interpessoalidade e intrapessoalidade, declínios, embotamento, entre outros.
Talvez o próprio mundo que habitamos seja pouco favorável àqueles que escutam suas vozes, pois em suas diversas narrativas complexas de entender o mundo, em diferentes culturas e sociedades, temos também alguns aspectos francamente comuns, como o Capitalismo, as atividades de labor acentuadas associadas a uma má distribuição de renda, o egocentrismo, o vazio de mídias sociais e assuntos nestas mesma plataforma, a desinformação quase que absoluta em alguns lugares, a perda de desígnio do "estar no mundo" como "agente", "livre-pensador" e ser "criativo", que muta sua vida e seu ambiente, em possibilidades de ação amplas. De fato, nossa realidade é um tanto cerceada. Habitualmente temos o asseio necessário para nos cuidarmos, mas não é dado na mesma medida para todos. A alimentação é ultra processada na maioria dos locais de consumo; os cuidados com o corpo são coadjuvantes, e o hábito de ler ou estudar muitas vezes é obliterado pela rotina intensa do labor, pelo seu cansaço e pelo pouco retorno monetário. Então podemos entender que a falta de cultura e a própria contextualização do "eu" no mundo, não é instrumental da dinâmica própria do ser, mas quase que, certeiramente, em nossos tempos, objeto provável de um determinismo social apoiado em mídias de consumo comum, trabalhos extenuantes de pouco retorno, desinformação e esvaziamento do tempo produtivo necessário à obtenção de entretenimento de qualidade e aquisição de conhecimento para transmutar o espaço "de nós", agentes.
Contextos Históricos e a Interpretação do Divino
Mas por que falar deste tema e qual a relação deste mundo contemporâneo, marcado por dissensões na interpretação do ouvir vozes? Para responder a esta questão, é preciso retomar nossos contextos pregressos. O ser humano já foi, por muitos séculos, muito mais "litúrgico" do que hoje. Os problemas enfrentados eram, em grande parte, mediados pelo divino, seja ao artista, seja à realeza, seja ao povo. Com a ascensão da burguesia no final do século XVIII, surgem algumas interpretações incipientes de um distanciamento do que é litúrgico e do que é próprio do "sacro" e do "divino". O homem vem cada vez mais em êxodo para os centros urbanos, muitas vezes lotados de fábricas, um formigueiro vivo de um ecossistema efervescente de narrativas diversas.
01
O Homem Litúrgico
Conexão com o divino e interpretação sacra das vozes
02
Ascensão da Burguesia
Distanciamento do sagrado e urbanização
03
Neurotização Contemporânea
Patologização e interpretação psiquiátrica
04
Nova Possibilidade
Reinterpretação pós-moderna da neuro atipia
Mas se o ouvir vozes, em todos aqueles tempos pregressos, tinha conexão com o divino, por que perdemos esta característica; e, por que, de alguma forma, esta nova interpretação veio a "piorar" a condição dos que possuem esta alteração de sensopercepção se em outros tempos isto poderia ser entendido como normal, razoável ou mesmo próprio de um valor moral, nobre, histórico, sacro e criativo? Talvez a resposta seja que nos "neurotizamos" demais. Acompanhando o ritmo rápido de um trem no dia a dia e desapegados de um contexto estrutural anterior do "mental", passamos a entender nossos dramas, muitas vezes encerrados em nós mesmos e nossas dores, contemporaneamente próprias à nossa natureza "patologizada e psiquiátrica".
Entendendo isto, vemos uma nova possibilidade, antagônica em muitos modos, a esta última, pós-moderna em suas raízes e, no presente, mais valorada na reinterpretação da neuro atipia enquanto condição individual, sem estigmas de sofrimento ou de interpretação epistemológica do outro enquanto "doente mental". Entendemos hoje que temos nossas particularidades, nossas potencialidades e nosso próprio "cânone", e que, quando adoecemos, podemos procurar ajuda médica ou psicológica, porém não mais privados daquela burocracia de "cabinete", catalogação e diagnosticalização, de poucas décadas atrás.

Esta nova realidade nos torna mais livres e deve ser valorizada, pois também agrega o que é individual e nos situa distante das "diferenças" interpressoais e intrapessoais carregadas de dogmas sanitários da saúde mental, de estigma, de culpa e de tributação de todos nós à um sistema encerrado na "impossibilidade de ser humano", citando Bukowski. É importante frisar que é sim também conveniente, por meio de cuidado médico adequado, termos a possibilidade ou a escolha de suprimir nossas dores humanas e nossa fragilidade, por vezes, muito belas; certamente, de narrativas extensas e milagrosas (a vida é uma arte).
Capítulo 2
A Sensopercepção Auditiva e o Campo Não Epistêmico
Assim como definimos a sociedade em estruturas sistemáticas de funcionamento - tal como o "modelo asiático", o "modelo feudal", a "primeira e a segunda revolução industrial" (a citar estes, pois existem outros), temos também, no campo das artes, "escolas", de "tantas" épocas, com particularidades à hierarquia cronológica, em que o homem, agente modificador "anti-natural", primeiro e único, sugou como "esponja" os dissensos, conflitos, contradições e proselitismos à cada período. Isto possibilitou a "formatação" intelectual do que é "criativo": o trovadorismo, humanismo, pré-renascentismo, barroco, arcadismo, que cito aqui enquanto exemplos de modelos eurocêntricos.
O período barroco, por exemplo, novamente à luz, primeiramente, do homem europeu, foi marcado por antagonismos: A Reforma e a Contra-reforma, em que dialogaram beligerantemente o litúrgico, na figura do clero, com o que é ciência, protagonizada em homens e mulheres de ideias e inovações, severamente punido(a)s ou morto(a)s. A sensorialidade, no mundo das artes, na época supracitada, apresentava àquele mundo europeu, em suas maiores cidades principalmente, a fusão entre corpo e transcendência em uma espiral antropomórfica de um intelecto humano em conflito.
O homem do período barroco, de Portugal, por exemplo, estava, em muitas circunstâncias, em terreno de imagens, metáforas e visões. Nesta retórica, o pré-cientificismo, "claro" e inspirador, à exemplo de "antítese", conflituava com uma "tese" pregressa, a do "escuro", em uma homem confuso, litúrgico e "endoidecido". Com antítese e tese, fundamentamos em síntese o que é o período barroco, mais tardiamente.
Comparação Entre Epistemes
que o objetivo deste trabalho explora o entendimento da patologia Esquizofrenia, muito depois nomeada assim e, digamos, "criada" sob recursos de observação do sintomatológico e do sinal semiológico , pelo médico Eugen Bleuler em 1908, podemos fazer algumas comparações do que é o interpretar a "audição de vozes intrusivas" no período barroco e no século XX. Segue então esta comparação:
Este é apenas um modelo, de um período histórico, dentro de uma escola artística própria do "velho mundo", expressivamente europeu, com suas características tão humanas e "finitas", para uma análise da "reviravolta" de um "código intelectual" baseado nas "alterações sensopercepção", sobretudo a auditiva, sintoma mais prevalente na Esquizofrenia. Acredito então que desta forma consegui demonstrar a grande diferença entre os anos de 1580 d.C. à 1756 d.C., em Portugal, do homem, mulher e crianças, na compreensão, nada parecida, ao que se teve após 1908 d.C; com a criação e expansão da Psiquiatria e seus manuais diagnósticos.
Mas, se o ser humano que ouve vozes intrusivas, enquanto sintomático e desorganizado, inevitavelmente, adoece a si mesmo e/ou outros; qual o propósito de questionar a ciência médica Psiquiatria, conhecida hoje por possibilitar vida digna, saudável, laborativa, comunal e capitalista, entre nós quando sofremos? Como responder à isto?
Não se trata de questionar a Psiquiatria, e sim de trazer o mundo não-epistemológico e o epistemológico deste sintoma humano, o ouvir vozes intrusivas. Para tal se faz utilizar, mesmo que de forma difícil e "obliterada", exemplos extremos, em que um e outro pouco dialoga em sua razão crítica.
Este trabalho tem predileção pela compreensão deste fenômeno ainda pouco entendido, mais comumente associado à Esquizofrenia, que é a alteração sensoperceptiva da audição. Por que também não mencionar que diversas outras psicopatologias cursam com este sintoma?
O objetivo do texto não é, totalitariamente, reificar o 'homem esquizofrênico" como "homem que ouve vozes". É compatível que, diferentes modelos existentes burocráticos de "cabinet", formalizem sintomas e sinais em diagnósticos que são diferentes, pois há semelhança entre uma psicopatologia "aqui ou ali". O não literal desta atribuição é o preço de um universo de paralelismos diagnósticos próprios da natureza burocrática, que tanto cataloga e que portanto tanto opera em classificações, que em algum momento, "cruza informações" (tal como um ficheiro de um computador que pode ser compartilhado em dois ou mais diferentes "diretórios").
Capítulo 3
Gil Vicente e a Dramatização do Sujeito Múltiplo
Gil Vicente pertence ao período pré-renascentista, no início do século XVI. É certo que durante esta época estava também em ascensão o Barroco abordado supramente, mas para não existir confusão é razoável lembrarmos que o ser humano é complexo e não linear e que diferentes sociedades, hora mais avançadas, ora mais atrasadas, poderiam ter efervescências culturais mais avançadas ou não.

É preciso dizer que este capítulo começa e se encerra em único propósito: "a vitória humana desneurotizada e volátil" e a "impossibilidade de um ser humano, "obstruído" pela macro física "das coisas" do entendimento do que é "saúde mental", no período moderno, e ainda amplamente no contemporâneo. A não epistemos racional analítica está ligada ao modos de narrativas heroicas.
É possível pensar Ilíada e Odisséia no tempo de hoje? É possível pensar em Camões e Vasco da Gama, agentes do "impossível" e do que não é "estrutura", e, ainda mais, com inúmeros outros humanos a servir propósitos complexos, mas que envolvem um dogma simples, não serem patologizados como delirantes, da "grandeza", por exemplo?
O Heroico e o Marginalizado
O medo do "diferente" é superior à escolha do "inovador"? Nossos espaços administrativos são cenários destinados às políticas do dia-a-dia e de organizações "razoáveis", muitas destas pequenas. Poucos anos antes da escrita deste texto foi valorada a "agenda" do DIY (do it yourself), que não apenas, graças às possibilidades capitais e de deslocamento, possibilitou um pequeno grupo à experimentação das "coisas do mundo", também reforçou garantias destes mesmo grupo como agentes a instalar instrumentos comunicativos e de mídia, expressivos ao comportamento quase que total de um país.
Então diretamente temos mínimas perdas para este grupo contextualizado em "agenda" (situação real e atual de tensionamento, em diversas direções, às necessidades do consumo capital, que pode mudar momentaneamente na insurgência de economia mais relevante, adaptável à um mesmo "denominador", e que portanto volta a "excluir" quem não tem "sustentabilidade" mercadológica). Veja, é tão pouco natural pensar que isso seja razoável, principalmente em um país como o Brasil, onde grande parcela da população, na pobreza, não comunica para trazer sua própria ideia de consumo, ainda que sendo maioria?
Há nisto um paralelo entre o "homem heroico", que dentre suas "especulações mentais", poderia ouvir vozes ou não e o homem que me refiro acima. É notável que a falta de leitmotiv proposital do que é segregado reside em uma fraqueza patologizada dos "overdiagnosis", filas extensas de afastamento do trabalho e de desconstrução de conhecimentos edificados pregressamente, sobretudo aos que mais sofrem economicamente. Mais doloroso pensar que este grupo de consumo "evita" e "atrapalha" narrativas de construção do "marginalizado". Por isto, a exemplo de um raciocínio elucidativo e que naturalmente explica esta crítica, devemos lembrar que o cinema, em sua origem, foi feito pelo povo que não exercia consumo mercantil "mais capital", mas que criou "Odisséias", findados no trabalho, diversos, e à temer e tentar escapar dos diagnósticos, para no que parece trivial, sendo criativo, viver o "razoável", que é formidável.

Mas qual o paralelo da psicopatologia Esquizofrenia com este tópico? O de que um obtuso raciocínio factício do mercado, de consumo fracionado, em emissões maciças de informação, esteja neurastênico à realidade, em um contemporâneo nada real. A "vontade" de atribuir aos negligenciados, desta dialética iniciada e encerrada em si mesmo, não existe em nossos comunicadores. Toda obra de criação artística, com possibilidade mais ampla de inventividade narrativa, seja de cinema, pintura, escultura, literatura, e outros, deveria começar em ordem mais racional e cartesiana.
Capítulo 4
O Gabinete e Olhar Catalogador do Século XIX
Eça de Queirós
Eça de Queirós desmonta o gesto "hermenêutico" que pretende traduzir o homem em mecanismo, sintoma ou estrutura interpretável. Logo cedo em suas obras ele mostra o ridículo dos sistemas que acreditam "curar" o homem pela classificação. No entanto, sendo Realista, à mis-èn-scene (casas, objetos, carros, adereços, roupas, móveis, locais...), o autor faz forte objetificação analítica e psicanalítica, em "close-ups", "planos detalhes", "planos americanos", todos visualizáveis ao ler qualquer obra sua, mas ainda poupando o "essencial" de seus personagens.
O Primo Basílio
Em O Primo Basílio, a figura de Juliana, com sua caixa de madeira repleta de pequenos objetos guardados compulsivamente, poderia ser lida pela psiquiatria moderna como sintoma da obsessão e/ou delírio. A própria personagem ter atribuição diagnóstica equívoca, entendida como louca. Eça, porém, transforma essa caixa — esse "arquivo íntimo" — em metáfora do delírio interpretativo da própria sociedade lisboeta, que vive de espiar, deduzir e diagnosticar a vida alheia.
A Cidade e as Serras
Em A Cidade e as Serras, onde Jacinto vive cercado de engenhos técnicos, bibliotecas infinitas, aparelhos pneumáticos, telefones, máquinas registradoras, dínamos, elevadores e intrincados sistemas de climatização, Eça ridiculariza a fé moderna no conhecimento totalizante. Antes de diagnosticar Jacinto entende que ele é um homem como qualquer um, que pode se "apaixonar" por novidades, que é criador de "sua realidade". E, principalmente, afasta o olhar patológico, fazendo a personagem "rir de si mesmo". Isto mostra que as descrições em sua obra estão mais alinhadas aos conceitos literários e médicos do século XIX do que aos diagnósticos psiquiátricos modernos e contemporâneos.

Capítulo 5
O Barroco Alemão e Antecipação do Inconsciente
Afim de encerrar esta discussão, que trouxe elementos literários à interpretação da loucura, alteração de sensopercepção auditiva e da Esquizofrenia, vou citar o estilo literário barroco alemão, que pode ter iniciado as primeiras interpretações diagnósticas e de praxis para o que viria ser o "hábito do cabinet", a catalogação e a burocratização da mente. Autoras e autores como Silesius, Gryphius e Böhme, entre 1600 e 1700, já articulavam uma dialética interior semelhante ao que Freud e Lacan definiriam como inconsciente. O misticismo alemão, profundamente paradoxal e sensorial, dissolvia o eu em experiências extáticas, criando uma linguagem que ressoa a própria lógica do delírio produtivo.
"Der Sandmann" (O Homem da Areia) de E.T.A. Hoffmann é um conto fundamental para a psicanálise, analisado por Sigmund Freud em seu ensaio "O Inquietante" (Das Unheimliche). Na exploração do "estranho", a angústia, o olhar, o autômato (Olympia), a culpa, a castração (olhos), e a loucura passional ele abre as portas ao que viria ser à representação do "inconsciente" e do trágico.

CONCLUSÃO
Ao fim desta análise literária, pontuando dois autores portugueses e representantes da literatura alemã, podemos agora vislumbrar o que é "ouvir vozes". O que era este fenômeno na pré-psiquiatria, no pré-bureau, psicanalise, cabinet e tantos outros nomes do catalogável. O objetivo, sendo um só, é o de valorizar a neuro atipia em nosso mundo. As artes, a história, a literatura, todas estas formas de expressão do conhecimento e da criatividade, são terreno fértil para discussões saudáveis e prazerosas.
Valorizando os outros e a nós mesmos podemos entender as diferenças que temos. Hoje muitos psiquiatras constroem a Pós-psiquiatria, que traz justamente esta filosofia ao pensar humano. Espero que este texto tenha conseguido fazer refletir como o homem era ontem, há algumas décadas atrás e como é hoje, como mudamos, e que podemos transformar uma realidade melhor para todos nós.
"Como profissionais, precisamos abandonar substancialmente a ideia de que possuímos uma fonte privilegiada de conhecimento e ciência sobre doenças mentais. Precisamos voltar ao básico e questionar que tipo de espaço, que tipo de pensamento, devemos cultivar em nós mesmos e em nossa profissão para que possamos, de fato, interagir de maneira útil e empoderadora com aqueles que buscam nossa ajuda (Pat Bracken é psiquiatra consultor e aposentou-se recentemente do cargo de diretor clínico de serviços em West Cork. Anteriormente, Pat foi professor de Filosofia, Diversidade e Saúde Mental na Universidade Central de Lancashire. Patrick Bracken e Philip Thomas escreveram diversos artigos sobre o tema na revista Postpsychiatry)".
Referências
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